Fusca

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terça-feira, 23 de outubro de 2012

VISITA À GARAGEM DO VOVÔ



Como a ave que volta ao ninho antigo
Depois de um longo e tenebroso inverno
Eu quis também rever o lar paterno
O meu primeiro e virginal abrigo

Há meses não me sai da cabeça o poema “Visita à Casa Paterna”, de Luiz Guimarães Júnior, cujos versos aprendi em minha adolescência, num livro de Português de segunda mão usado pelo Colégio Marista de São Paulo.
 
 
A recente morte de vovô reavivou-me aquele poema. Joseph era seu nome. O fato de ter abdicado de seu convívio, justamente nos últimos anos de sua vida, inquieta-me a alma. Vovô foi muito importante para mim. Ensinou-me as primeiras linhas, a andar de bicicleta e a dirigir. Vi o mar pela primeira vez segurando firme sua mão. Foi enérgico quando necessário e amável sempre. Alinhavou meu caráter. Substituiu, o quanto pôde, a ausência de meu pai.

 
Dentre as lembranças mais caras, recordo, com especial desvelo, das diversas viagens que fizemos com seu fusca.
 
 
Os hotéis, os campos, as montanhas, as brincadeiras dentro do chiqueirinho do fusca. Não raras vezes adormecia no carro com vovô entoando a cantiga "Petrus schliest den Himmel zu".
 
 
O fusca foi companheiro de diversas aventuras. Mato Grosso, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Uruguai, Paraguai.
 
 
Certa vez, até para a Patagônia argentina fomos. Foi quando vi a neve pela primeira vez. Não havia lugar ao sul do Brasil que não tenhamos conhecido a bordo do valente fusquinha.
 
 
Isso sem falar dos diversos pic-nics que fizemos nos arredores da cidade. Eu adorava aquilo! 
 
 
Era um fusca 56, com teto solar de lona. Vovô o havia comprado novo na Alemanha. Quando migrou para o Brazil no ano de 1960 trouxe consigo o pequeno besouro. Nunca se desfez do carrinho. Foi nesse fusca que, aos dezesseis anos, aprendi a dirigir.
 
 
Lembro-me do penetrante céu azul do verão catarinense visto da abertura do teto solar; um diferente olhar do mesmo céu de cada dia.     

O debilitado estado de saúde de vovô fez com que o fusca não fosse mais usado por mais de uma década. O carro ficou durante anos repousando na garagem. Nas poucas visitas que fui visitar vovô nesse período conturbado, não perdia a oportunidade de entrar na garagem para dar uma olhadela no fusca. Estava sempre embaixo de uma capa grossa, protegido da poeira e das mãos mais curiosas.
 
E agora aquele fusquinha era meu! Num misto de alegria e tristeza, ansiedade e apreensão, estava eu retornando “ao lar paterno” para buscar os pertences que restaram. A mim, coube-me a garagem: o fusca e as diversas peças e acessórios que vovô foi acumulando ao longo dos anos. A maioria das peças foram trazidas da Alemanha junto com a mudança, apinhadas em velhas malas e baús.

"Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo."
  
Entrar na casa vazia de um ente querido após sua partida sempre causa uma certa comoção. Sentia a presença dele. Ao passar pela sala de jantar, parecia que o via sentado à mesa tomando seu café da manhã. “Bom dia meu neto, dormiu bem?”.
 
"Era esta a sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade
Minhas irmãs e minha mãe ... O pranto

jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade."

 
Contendo as lágrimas, sai às pressas de dentro da casa. Suspirei fundo. Olhei a garagem e, titubeante, caminhei em sua direção ...
 

3 comentários:

  1. Belíssima e emocionante reflexão amigo...

    Que bom que tenhas compartilhado momentos bons com teu Avô e que tu possas lembrar dele com tanto carinho e gratidão.

    Lamento pela tua perda...

    Grande abraço!

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  2. Que história!!!!

    Mas afinal... esse Fusca do seu avô ainda está com vocês???

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