Fusca

Fusca

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A ASA DA PANAIR NO FUSCA

      Por: Laércio Becker, de Curitiba-PR

“Descobri que as coisas mudam
E que tudo é pequeno
Nas asas da Panair.”
(Milton Nascimento e Fernando Brant)

Na Quinta-Feira Santa de 2015, meu amigo Rudinei me mostrou um exemplar da revista VW Trends, de dezembro de 2000. Nele, havia uma breve nota citando a produção brasileira e australiana de um acessório de Fusca bastante curioso.

VW Trends de dezembro de 2000.

Trata-se de um enfeite para pôr no capô, que tem o formato do logotipo da Volkswagen (vazado) com uma asa. Imediatamente, comentei: caramba, isso lembra o logotipo da Panair!


Eu não podia deixar de fazer essa comparação por um motivo muito simples: minha tia Karin Hertha Becker foi comissária de bordo da Panair. Então, naturalmente, eu convivi com várias de suas histórias e também com a memorabilia da companhia.
Como gosto de aviação, de Fusca e de heráldica, eu me propus a pesquisar o assunto e escrever algumas palavras sobre isso aqui no excelente blog Opasgarage, que é a bíblia on-line dos acessórios de Fusca.


Bem, a pesquisa sobre a evolução do logotipo da Panair poderia exigir um pente-fino em todo o material que tenho sobre a história da aviação comercial brasileira. Mas aviso que seria trabalho desperdiçado. Porque, embora minha tia fosse aeronauta da Panair e da Varig e eu aeroviário da Varig, o material que guardei diz mais respeito... pois é, à Cruzeiro (e ao Electra II). Fazer o quê, são as contradições da vida. Então, para otimizar o trabalho, foquei em cinco livros que tenho sobre a história da Panair, além de um livro de fotos do cmte. Dufriche, um artigo da revista Flap e três clássicos da historiografia aeronáutica comercial brasileira – ver as referências bibliográficas ao final deste artigo.
O leitor do Opas já sabe de cor e salteado a história da Volkswagen. Mas para tentar contextualizar o design desse acessório, seria interessante fazer uma brevíssima retrospectiva da Panair. Tudo começou em junho de 1929, quando o piloto americano Ralph O’Neil, veterano da I Guerra Mundial, fundou a New York Rio & Buenos Aires Line Inc., mais conhecida pela sigla Nyrba. Seu objetivo era ligar os Estados Unidos à América do Sul – reflexo distante da Doutrina Monroe (1823), “a América para os americanos”.
Como as linhas domésticas dentro do Brasil não podiam ser operadas por companhias estrangeiras, em 22.10.1929, O’Neil fundou a subsidiária Nyrba do Brasil S/A. Pouco depois, ele vendeu ambas as empresas à Pan American Airways Inc. (futuramente conhecida como PanAm, também dedicada aos vôos para a América Latina), que em 01.10.1930 alterou o nome da subsidiária para Panair do Brasil S/A – “Panair” era o endereço telegráfico da Pan American Airways.
Fotografias e material publicitário da década de 30 mostram que o primeiro logotipo da Panair foi “emprestado” (leia-se: imposto) pela Pan American Airways System. As principais diferenças para o logo americano são: (i) na parte circular, que tinha o desenho de uma cartografia simplificada da Américas Central e do Sul, enquanto (ii) no bordo de ataque da asa, por vezes, lia-se “Brasil”.





Ainda nos anos 30, surge também o conhecido logo da Panair, cuja parte circular ostentava a constelação do Cruzeiro do Sul (Crux) e uma faixa curva em que se lê o nome da empresa. (A diferença é que, na deriva das aeronaves, o logotipo se resumia à parte circular, sem a asa.)
A escolha dessa constelação é bem apropriada para dar um toque de brasilidade à empresa estrangeira, pois o Cruzeiro do Sul está associado à semiologia pátria desde o dia da coroação de D. Pedro I, quando ele baixou o Decreto de 01.12.1822, que criou a Imperial Ordem do Cruzeiro.
Antes que alguém pergunte: na década de 30 a moeda brasileira ainda era o mil-réis; só virou Cruzeiro com o Decreto-lei nº 4.791, de 05.10.1942. E a congênere Serviços Aéreos Condor Ltda. só mudou de nome para Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul Ltda. com o Decreto n° 5.197, de 16.01.1943.
 A faixa curva divide a constelação, isolando na parte inferior do logotipo a estrela Alfa (a) do Cruzeiro, também conhecida como Alpha Crucis e pelo apelido “Magalhães”, e que na realidade não é uma estrela, mas um aglomerado de uma centena de estrelas, que parecem uma só a olho nu.
Essa faixa representaria o zodíaco e sua linha intermédia, a eclíptica? Pouco provável, por dois motivos:
1) Na carta celeste, a eclíptica separa os hemisférios norte e sul, sendo que o Cruzeiro do Sul é integralmente visível no hemisfério sul, sendo impossível representar a Alfa em hemisfério distinto das demais. Aliás, por que se fez isso? Creio que não houve intenção semiológica, porque, na bandeira republicana, a Alpha Crucis representa o estado de São Paulo, mas a Nyrba/Panair sempre teve sede no Rio de Janeiro. O motivo deve ter sido de ordem exclusivamente estética.
2) No logotipo da Panair, a faixa curva tem concavidade positiva, ao contrário das representações do zodíaco e da eclíptica no céu brasileiro, cujas curvas apresentam concavidade negativa. Basta observar a bandeira republicana que, apesar de inúmeros erros astronômicos apontados por Eduardo Prado e Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, pelo menos não conseguiu errar a concavidade. Mas por que o logo da Panair teria concavidade positiva? Acho que seria difícil traçar uma faixa de concavidade negativa sem prejudicar a disposição proporcional das estrelas na representação gráfica do Cruzeiro do Sul. Além disso, meu amigo Rudinei chamou atenção para outro detalhe: pode ser para acompanhar o desenho do bordo de fuga da asa. Ou seja, outros motivos de ordem meramente estética.


Em 01.01.1943, Paulo Sampaio assumiu a presidência da Panair, mediante o compromisso que a controladora assumiu de nacionalizá-la. Um de seus primeiros atos, nesse sentido, ele praticou em 20.01.1943, quando determinou a substituição do nome “Pan American Airways System” (que era acompanhado pelo respectivo logotipo) por “Panair do Brasil S/A” (idem), no edifício da empresa no aeroporto Santos Dumont.
Prosseguindo no seu lento processo de nacionalização, em 26.05.1943, a Panair resolveu adotar uma identidade visual mais brasileira, com preponderância do verde como cor padrão. Nem uma palavra sobre eventuais alterações no logotipo. Todavia, a análise detida da iconografia “panairiana” permite inferir, com certo grau de segurança, que foram poucas e meramente cosméticas as alterações do logotipo ao longo dos anos – chamando minha atenção apenas o número de estrelas no bordo de ataque da asa.


Outro detalhe curioso é a inclinação da asa. De fato, muitas vezes, a reprodução do logotipo da Panair era feita de modo que a asa ficava inclinada, com a ponta para cima. O detalhe que Rudinei chamou a atenção é que, graças à curvatura do capô, o acessório do Fusca também fica com a asa inclinada.
 Pois bem, com tudo isso que acima falamos, podemos localizar o início da divulgação do logotipo da Panair na década de 30. E o fim? A Panair teve suas concessões de linhas aéreas suspensas em 10.02.1965, data que marca o início do processo de perda da divulgação da marca e, conseqüentemente, do logotipo. Apesar de a “Família Panair” ter batalhado durante décadas pelo restabelecimento da companhia, com encontros anuais e comemorações às efemérides de sua história, era inevitável que o fim da publicidade rotineira, em comerciais e noticiários, fizesse com que o nome, a marca e o logotipo caíssem paulatinamente no esquecimento.
Os processos de firmar uma marca para um público e de retirá-la de circulação não possuem datas precisas e são muito lentos. P.ex., em 1997, a Folha de S. Paulo divulgou uma pesquisa Top of Mind em que a Cruzeiro, depois de ficar longos anos sem ser lembrada por ninguém apareceu com 1% de entrevistados que foram perguntados sobre qual a primeira companhia aérea que lhe vinha à mente. Detalhe: isso ocorreu sem qualquer propaganda do nome da Cruzeiro durante uma década, enquanto companhias aéreas ainda existentes e com propaganda por aí, bem como as regionais e as estrangeiras, não saíram do 0%. É razoável supor que processo semelhante aconteceu com a Panair, o que poderia estender a sobrevivência da marca no imaginário coletivo, pelo menos, até a década de 70. Que sirva de prova a canção “Saudade dos aviões da Panair (conversando num bar)”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, lançada no LP Minas, pela EMI-Odeon, em 1975.
Com todas essas informações em mente, podemos dizer que o logotipo da Panair esteve potencialmente presente no imaginário coletivo brasileiro dos anos 30 aos 70, concentrando-se dos 40 (nacionalização) aos 60 (fim da concessão). Já o Fusca, como o leitor do Opasgarage sabe, desembarcou no Brasil nos anos 50 e, após uma interrupção, saiu de produção em definitivo nos anos 90 (o “New Beetle” não conta porque é outro carro). Embora o Fusca ainda esteja presente no imaginário popular, para especular quando foi produzido o acessório em questão, devemos ter em conta apenas o período de importação e produção.
Com todos esses dados em mente, fiz rigorosíssimos cálculos estatísticos e cheguei ao seguinte gráfico comprobatório da presença da Panair e do Fusca no imaginário popular (ao leitor mais exigente, aviso que a memória de cálculo será publicada na mui tradicional revista Wolfsburg Zeitschrift für Statistik – quando ela for lançada, é claro):


Considerando o gráfico acima e o próprio design do acessório, arrisco-me a apostar que ele deve ser década de 60 ou 70. (Ou será que eu embarquei num Fusca da Panair e viajei na maionese?) A correção desse palpite fica a cargo do Opasgarage...

Referências bibliográficas:

ABREU JR., Theophilo E. de. Nas asas da Panair. Rio de Janeiro: ed. do autor, 1999.
BARBOSA, Nair Palhano. Nas asas da história: lembranças da Panair do Brasil. Rio de Janeiro: Agir, 1996.
DAVIES, R.E.G. Airlines of Latin America since 1919. McLean: Paladwr, 1997.
DUFRICHE, Carlos E. Os aviões que fizeram a aviação comercial brasileira. Rio de Janeiro: Sindicato Nacional dos Aeronautas, 1982.
LAUX, Paulo F. Panair, o orgulho verde e amarelo do Brasil. Flap Internacional, São Paulo, a. 40, nº 363, dez./2002, p. 8 e ss.
MEDEIROS, J.D. (ed.). A história da Panair do Brasil: 50 anos. S/l: Editora Técnica de Aviação, s/d.
MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. A história da bandeira da república, sob o ponto de vista da astronomia. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, a. 159, nº 398, jan./mar. 1998, p. 85 e ss.
PEREIRA, Aldo. Breve história da aviação comercial brasileira. Rio de Janeiro: Europa, 1987.
PESSOA, Lenildo Tabosa. História da aviação comercial brasileira. São Paulo: Ed. Rios, 1989.
PRADO, Eduardo. A bandeira nacional. São Paulo: Salesiana, 1903.
SASAKI, Daniel Leb. Pouso forçado: a história por trás da destruição da Panair do Brasil pelo regime militar. Rio de Janeiro: Record, 2005.
SILVA, Orlando Marques da; CALAINHO, Luiz. História cronológica da Panair do Brasil S.A. S/l: ed. dos autores, 1988.

Breves Anotações de Opasgarage:

Primeiramente agradeço ao amigo Laércio Becker por ter, novamente, colaborado com este modesto blog. Como sempre, pesquisa perfeita e texto envolvente, sempre com boa pitada de bom humor. Quanto ao desafio lançado ao final de seu artigo, ouso afirmar que o uso do enfeite no capô do Fusca está mais para os anos 60 do que para a década seguinte. Lembremos que até 1950 o uso de um símbolo sobre o capô era bastante comum, principalmente nos carros americanos. Simbolizava requinte e beleza.

O enfeite automotivo mais famoso é, sem dúvida, o "Espírito do Êxtase", inspirado numa amante devotada, utilizado na extremidade do capô do Rolls-Royce desde 1911. O Fusca não podia se esquivar dessa moda. No mundo inteiro, várias emblemas, dos mais variados matizes e formas, foram utilizados no capô dianteiro do besouro.

Emblema utilizado no capô de um Fusca americano.

Esse modelo lembra a figura de um avião. Como o Fusca não tem radiador, esse enfeite é instalado na metade inferior do capô, de modo a deixá-lo o mais próximo possível dos faróis.

Enfeite australiano, feito em bronze maciço.

Enfeite em acrílico transparente com detalhes em vermelho. Esse exemplar possui pequenas linguetas que permitem seja fixado no próprio friso do capô, sem necessidade de furá-lo como nos demais modelos.

Outra variação, desta feita, com detalhes do Castelo de Wolfsburg.

Esses emblemas, a maioria instalados apenas para enfeitar o Fusca, são, foram inspirados em asas, aviões, no vento, no movimento incessante do Fusca, que, desde 1938, continua "voando" baixo com seu motorzinho refrigerado a ar. 

11 comentários:

  1. Olá, encontrei um emblema igual ao terceiro de baixo para cima modelo australiano, gostaria de saber quanto vale hoje um desses.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É dificil avaliar um preço nessas peças. A depender do vendedor, pedirão 50,00. Outros 200/300,00, talvez até mais.

      Excluir
    2. O vendedor pede 300 reais. Achei alto o preço, enfim, obrigado por responder.

      Excluir
  2. Onde encontro um destes para venda?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aqui no Brasil é dificil de encontrar. Mesmo lá fora, há certa dificuldade de achar peça genuina de época. Preciso sempre estar atento nos encontros de antigos e nas vendas pela internet. Boa sorte na procura.

      Excluir
    2. oi Leandro, sobre a venda do emblema, favor entrar em contato com opasgarage@hotmail.com Grato.

      Excluir
  3. Tenho aqui:
    http://www.vwantigo.net/shop/product_info.php?products_id=1997
    http://www.vwantigo.net/shop/product_info.php?products_id=2224

    ResponderExcluir
  4. Se alguem tiver a venda me contate : matteo_vanzo@hotmail.com

    ResponderExcluir
  5. O mais irônico é que, esses acessórios tais como, calotas ornamentadas, esse distintivo de capô, entre outros fazem mais sucesso hoje que na década de 50 ou 60, pois provavelmente esses acessórios na época eram vistos como de "carro do pai, ou do avô" pelos jovens da época, falo isso porque hoje a maioria dos Fuscas têm a banda branca nos pneus, mas na década de 80 por exemplo, mesmo que tivesse essas disponíveis, elas não fariam o mínimo sucesso pois os jovens da época queriam os Fuscas totalmente com perfil esportivo.

    ResponderExcluir