Fusca

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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

MEU FUSCA


Reproduzo, abaixo, texto publicado por Luís Fernando Veríssimo no Jornal O Globo e na Gazeta do Povo em Curitiba nesse fim de semana. O texto está também disponível no seguinte link: http://noblat.oglobo.globo.com/cronicas/noticia/2015/09/meu-fusca.html.


MEU FUSCA

Por Luís Fernando Veríssimo

Me lembrei, com carinho, do meu primeiro carro, um Fusca cor de chocolate. Podia-se dizer tudo sobre o Fusca menos que não fosse honesto.

Se entendi bem, carros movidos a diesel da Volkswagen eram equipados com um computador mentiroso. Quando o carro era testado para se saber se estava poluindo o ar ou não o computador dizia “Nein!”, até com um certo tom de ultrajado.

Usados normalmente, longe da inspeção, os carros envenenavam o ambiente à vontade, abençoados pelo computador. Que, além de salafrário, era inteligente. Sabia quando era teste, e ele deveria mentir, e quando não era. Não me pergunte como.

Que mundo é este, em que não se pode confiar mais nem na engenharia alemã? Me lembrei, com carinho, do meu primeiro carro, um Fusca cor de chocolate. Podia-se dizer tudo sobre o Fusca — um dos seus apelidos era Cascudo Maldito — menos que não fosse honesto.

Ele era desprovido de qualquer ornamento supérfluo, o que significava que custava pouco. Havia algo de sério e confiável na sua simplicidade, e era fácil mantê-lo e estacioná-lo. E ele nos serviu com segurança durante muito tempo.

Uma vez fomos de Fusca de Porto Alegre ao Rio, com as duas meninas pequenas e a Lucia grávida. O único percalço no caminho não foi culpa dele, foi minha. Calculei mal, e a gasolina acabou no meio da estrada, a poucos quilômetros de Lajes, em Santa Catarina.

Tive que ir a pé procurar um posto, no escuro. Quando voltei para o carro com um balde de gasolina ele, sempre amigo, não fez nenhum comentário sobre minha falha.

Aventura mesmo, nesta e em outras viagens de carro que fizemos ao Rio, era atravessar São Paulo. Naquele tempo a sinalização dentro da cidade era escassa, avançava-se na direção do Centro e — com sorte — um hotel barato confiando na intuição, e na bússola interior que sempre acaba, de um jeito ou de outro, ajudando os desorientados do mundo.

Outro problema era sair do Centro na manhã seguinte e encontrar a saída de São Paulo para o Rio. Também nestes casos nunca me faltou a compreensão do Fusca.

Estou falando do Fusca porque, de certa forma, ele simbolizou uma reconciliação mundial com a Volkswagen, cujo passado não a recomendava. O cascudo simpático desculpava a sua participação na máquina de guerra nazista, e o sucesso das suas outras marcas significou o perdão pela sua cumplicidade no terror e o reconhecimento da sua competência.

Agora a Volkswagen está tendo que pedir desculpas de novo. Quanto ao nosso Fusca cor de chocolate, tenho certeza que ele nunca aceitaria fazer parte da fraude.

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