Fusca

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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

PRECISÃO SUÍÇA


Uma das principais virtudes do Fusca é o seu motor. Economia, durabilidade, confiabilidade, robustez e facilidade de manutenção são atributos que ninguém questiona. Mas, a despeito dessas qualidades, muitos proprietários ansiavam por um melhor desempenho do besouro.

Apesar da constante evolução do Fusca, seu motor, em mais de duas décadas, nunca teve mais do que 46 hp de potência máxima. Lembremos: o motor 1100, utilizado até 1953. tinha 25 hp; o 1200 lançado em 1954 variou de 30 a 36 hp (na Alemanha chegou-se a produzir, no início dos anos 60, um Fusca 1200 com 40 hp). Somente em 1967 estreou no Brasil o motor 1300 com 46 hp. Ou seja, era pouco para queria mais emoção ao dirigir. 

O jeito era partir para envenenar o besouro, promovendo alterações mecânicas para aumentar a potência e melhorar seu desempenho. O Fusca foi, sem qualquer sombra de dúvidas, o carro nacional mais modificado nesse sentido. Conquanto a Volkswagen sempre ter sido contra quaisquer tipos de modificações no motor do Fusca, sob pena de, quem as fizesse, perder a garantia da fábrica, não faltavam opções no mercado para empurrar o besouro a outro patamar de comportamento na estrada.


Não existe uma fórmula de veneno previamente definida. Tudo irá depender das necessidades e do bolso do proprietário. As possibilidades eram inúmeras. Aumentar o diâmetro dos cilindros e pistões, promover alterações no cabeçote para aumentar a compressão, efetuar a troca do eixo de comando de válvulas, aumentar o número de carburadores de um para dois,  realizar mudanças na parte elétrica, como no distribuidor, velas, bobinas e condensadores, modificar a caixa de câmbio e a suspensão, operar o aliviamento de partes da carroceria para deixar o veículo mais leve, trocar rodas e pneus, colocar estabilizadores, melhorar o sistema de frenagem, etc, etc. etc. Tudo isso faz parte do processo de envenenamento do Fusca. 

Para quem não quisesse sacar o motor para promover a substituição de seus componentes, uma opção rápida e eficaz era instalar no Fusquinha um compressor, também chamado de superalimentador ou supercharger. Trata-se de um equipamento que força a mistura ar/combustível para o interior dos cilindros, em substituição à sucção normal do êmbolo, aumentando a potência e sobretudo o torque do motor. Com a ajuda do compressor, cada cilindro consegue gerar quase o dobro do que faria em condições normais. O supercharger é ligado diretamente ao motor, normalmente pela polia do virabrequim, local onde exerce força para levar o ar extra aos cilindros.

Logomarca MAG.

Existiam diversas marcas à época, podendo ser citados os compressores americanos JUDSON, PEPCO, SHORROCK e CROFTON, a italiana ITALMECCANICA, as brasileiras VISCOUNT e WELBA e a suíca MAG, da qual trataremos mais especificamente neste post

Fusca 1955 com compressor MAG instalado.

O compressor MAG foi construído pela empresa Motosacoche S/A, sediada em Genebra, na Suíça, no início dos anos 50. Além do Fusca, a MAG fabricou o equipamento para diversos outros carros europeus visando maximizar a performance desses veículos.

Motocicleta Motosacoche IOE Gran Turismo 750, de 1929.

A empresa, fundada em 1899, foi fabricante de  motocicletas, além de fornecer seus motores para outras marcas. Foi por muitos anos a maior fabricante de motocicletas da Suíça. Em 1928, a Motosacoche entrou no centro das atenções ao vencer dois títulos de corrida europeus. Além disso, fabricava motores estacionários para as mais diversas finalidades. Alguns de seus compressores chegaram a equiparar esses motores industriais. Infelizmente, a empresa não existe mais.

Anúncio de novembro de 1957.

O compressor MAG é do tipo "roots" ou de lóbulos, comprimindo mais em diversos regimes de rotação, caracterizando-se pela entrega de um volume constante a cada rotação. É diferente do JUDSON, por exemplo, que é do tipo "vane" ou excêntrico, mais apropriado para baixas rotações. Em relação ao JUDSON - compressor mais conhecido no Brasil por ter sido importado para cá nas décadas de 50 e 60 -, o supercharger MAG gerava menos pressão, porém, suficiente para que o Fusca tivesse ótima desenvoltura em uma subida de serra, por exemplo.

Folder da MAG com o compressor instalado em um Karmann-Guia.

Além do compressor propriamente dito, o kit da MAG incluía um novo carburador Solex 32 PBSI (em substituição ao original SOLEX 28 PCI), uma polia adicional para o virabrequim, uma correia adicional, novos dutos para reconduzir o fluxo do ar e um lubrificador de óleo. O filtro de ar original era mantido, exceto se o proprietário quisesse trocá-lo por outro, mais esportivo, o que normalmente acontecia. O kit custava em 1957 a quantia de U$ 195 dólares americanos.


A instalação do superalimentador era relativamente simples, exceto pela necessidade de se soldar a base do equipamento no lado esquerdo do coletor de admissão. Uma vez soldada a base, o compressor era ali fixado por parafusos. Não se precisava se retirar o motor. Também era necessário deslocar a bobina de ignição para o lado direito da capelinha. O novo carburador era instalado sobre o compressor. A MAG recomendava, contudo, a troca das velas originais pela Champion L10S ou Bosch W240T1.

Outro modelo do compressor MAG.

A Motosacoche fabricou uma variação do compressor, com sua posição invertida. Nesse compressor, o lubrificador de óleo ficava no lado esquerdo e a bobina era levemente deslocada, porém, mantendo-se à esquerda da capela.

O supercharger MAG possuía a qualidade e precisão de um relógio suíço. Diferente do JUDSON, era bem mais silencioso, tanto por dentro quanto por fora do carro. Sua manutenção limitava-se a regulagem da correia, feita por calços (o mesmo sistema utilizado na polia do dínamo original). Além disso, era preciso engraxar as engrenagens do compressor e verificar, periodicamente, o nível do lubrificador de óleo, que servia para lubrificar o equipamento, procedimento manual que devia ser feito a cada 1.600 km rodados. Esse reservatório de óleo era feito em material plástico. No JUDSON, por exemplo, esse receptáculo era de vidro (marca MARVEL).

Supercharger MAG em um Fusca.

Mas, afinal de contas, quanto o Fusca ganhava em desempenho com a instalação do compressor MAG? Em 1955, a Revista americana Road and Track, efetuou um teste com um Fusca 1955 equipado com o compressor suíço MAG. Adiante os resultados obtidos na época:


Fusca 1955 
Original
Fusca 1955 com MAG Supercharger
0 a 48 km/h
7,1 s
6,3 s
0 a 64 km/h
12,4 s
10,7 s
0 a 80 km/h
18,5 s
15,1 s
0 a 96 km/h
30,5 s
22,0 s
0 a 112 km/h
-
37,6 s
Vel. Máx.
110 km/h
120 km/h


Outros dados do teste: velocidade máxima alcançada: 120 km/h; em terceira marcha: 89 km/h; em segunda marcha: 58 km/h; em primeira marcha: 27 km/h. Por ordem de marcha: 1a: + 24%; 2a.: + 19%; 3a.: +13% e 4a.: + 8%.


Fusca 1951 com compressor MAG.

A tabela comparativa do teste indica que o compressor MAG proporcionava, em média, 10% a mais de rendimento do motor. A potência máxima podia ir de 36 hp para 43 hp, aproximadamente. Na época, nenhum mostrador foi instalado, mas estimava-se que a pressão de impulso do supercharger ficara em torno de 3 a 3,5 psi.

Fusca exibindo o raro compressor MAG.

Apenas sob a ótica da potência adicional gerada pelo uso do compressor, o MAG ficava bem atrás do JUDSON, que prometia 50% a mais de força ao motor. Todavia, segundo especialistas da época, o compressor MAG, ao mesmo tempo que atendia o desejo de mais performance no Fusca, não sobrecarregava o durável e bem construído motor refrigerado a ar, desde que, obviamente, não se cometesse excessos.

Utilizando-se a capacidade máxima do compressor, o consumo de combustível podia ser 30% maior. Porém, em situações normais - mantendo-se a velocidade de cruzeiro a 100 km/h, o consumo aumentava em cerca de 12%.

A Volkswagen não recomendava a colocação desses superchargers nos seus veículos. É inegável que qualquer tipo de modificação na configuração original do motor visando incrementar sua potência e torque, implica em perda de sua durabilidade. Há quem diga que a instalação de compressores reduzem em 40% a vida útil dos motores. Apesar de tudo isso, quem tem um MAG, JUDSON, PEPCO, SHORROCK, CROFTON, ITALMECCANICA, VISCOUNT e WELBA instalados em seu Fusca, possui um tesouro que deve ser apreciado e mantido como símbolo de um tempo em que o automobilismo era bem mais divertido.

Vídeo com o compressor MAG instalado em um Karmann-Guia.

5 comentários:

  1. Parabéns pelo blog.
    Perco horas por aqui!

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  2. Sensacional Opa^^

    Nem imaginava a existência de "veneno" como esse^^

    Teus textos são sempre perfeitos e deliciosos de ler^^

    Parabéns^0^

    Grande abrax^^

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  3. Cara que legal blog muito incrível esse veneno teria q existir até hj

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